domingo, 24 de janeiro de 2010

Vivência


Na verdade penso em outro lugar.
Penso na essência do tabaco nato,
mato morto, fogo corrente,
brisa forte do mar.


Cantar das ondas,
suspiro do vento,
telhas encardidas,
molhadas, queimadas.
Gente nova e velha;
gente feliz.
Risos e estórias;
armações à luz da lua na calçada.


Trovoada, pés sujos,
melados de areia grudenta.
Cobra, cachorro sarnento,
bicho-de-pé e de porco.
Cavalo ferido,
boi abatido,
homem de olhos diferentes,
gato de um olho só.


Cheiro de tinta,
cheia de terra.
Caju e castanha torrada,
carne assada na toada da noite.

Sol amarelo-laranja,
chuva macia,
suco de manga.


Comer até estourar,
tubaína, cuscuz e mungunzá.
Cansanção, escuridão, vela acesa,
lanternas em buracos de areia.
Siri, guaiamum e caranguejo,
côco verde no coqueiro lá do beco.

Pôr-do-sol, caminhada, quebra-mar,
banho de chuva, de mangueira e de luar.
Banheiro que aparece até gia,
tubarão que cheira à melancia.


Feridentas e traquinas crianças,
que faziam de um rabo, uma trança.
Aprender a andar de bicicleta,
rala joelho, rala mão e quebra a testa.


Menininha que dorme bem lá na rede,
ouve estórias de estrelinhas bem brilhantes.
Vai fechando os seus olhos cintilantes,
e em seu sonho, lua-sol com tinta verde.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

No beco sujo do mundo




No beco sujo do mundo
o sal ardia nos olhos dos pescadores
Mãe Menininha cantava de joelhos
pedindo a volta dos que não foram.
Cão côxo corria maldito,
a mãe de Judas morreu!

No beco sujo do mundo
dois galões vazios
desfaleciam soturnos.
Pro céu descolorido Pai Santo olhou
e a boca abriu,
a língua ergueu
e seco chorou.


A cor do milho sumindo,
galinha murcha ficando.
É cana-sem-açúcar,
feijão de corda torando,
mandacaru fulorando
E o bucho aqui me matando.


O luar que tardava a chegar,
o sol queimava sem cessar.
E na areia que secava até rachar,
vaca ossuda empacou.


Sou nordestino nato
não trabalho no mato,
mas minh'alma é de batalhador.
Acordei num beco profundo,
e no beco sujo do mundo
filho e meio a seca me tirou.

sábado, 24 de outubro de 2009

Luz


''Enquanto seu olhar negro, penetrante, rastejava de piedade diante de mim, suas mãos longas e envelhecidas tateavam às cegas meu rosto despido. O Sol por fim parou de chover andorinhas, mas o arrastar das folhas ainda me intimida suspiro ante suspiro:
- Vou contigo.
E partimos pro pôr-do-sol da esquina ao lado.''

Conversa pra boi sorrir


Divida a Lua comigo, ué! A pobre coitada é tão grande e branca que há de caber duas pessoas ali. São Jorge matou o dragão, lembra? E agora que partiu com aquele cavalo preguiçoso, tem espaço de sobra naquelas crateras. Ah, queres assim?! Então sabe de uma coisa? Ela brilha tanto que prefiro ver daqui, e quem sabe, imaginar o que possa existir além daquelas nuvens espaçosas. Daqui o tamanho da imensidão é comparado aos nossos olhos arregalados de tanto almejar a vinda dessa lua nova que já tá mais do que velha.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Vida à Três - O Mal-te-querer


Seu ufanismo nativista

não mais me comove.

Antítese sentimental monocromática

na concomitância da descoloração

do teu elemento dantes contemplativo.




Frases nuas, sem pudor

não envergonham

nem apetecem a mais ninguém.

Nem se deixam por envergonhar.




Mera passagem hostil do tempo,

na monotonia do relógio que enfeita a sala

fabricado por seu João.

Jogai o cuco pútrido nos teus quintos.




Corra atrás do nada,

eu não estou lá.


Enquanto minhas lágrimas

guardadas com tanto esmero

não me umedecem,

Encontra as quatro paredes brancas

vazias e frias de sossego.




A minha nuvem desenhada a flores

de cor vermelha, de coração lapidado,

me conforta agora como nunca fora

confortada entre tantos lençóis.

Semanídio


Eu certamente poderia passar uma semana no para-peito da janela do quarto analisando o movimento.

E em semanas póstumas me acompanhariam os livros, o cachorro, e por fim o telefone que me inserisse de alguma forma no meio externo de pó.

Passado um mês de semanas gradativa e saborosamente ociosas, sentiria a ânsia de me locomover ao movimento dantes analisado.

Enquanto iria à rodovia a qual passava o vendedor de acarajé alto e mestiço, o casal de velhos na velharia do jogo de damas da esquina permaneceria frente a frente, cara a cara, peito a peito.

Enfim encaixei-me no caixote de cimento podre, e esperei a batida...

A mesma carroça, o mesmo bode, o mesmo bonde, e um cheiro de dendê.
Um cheiro.

Minha vida mudando desde que estivera metros abaixo da minha janela. O mundo era cego, ninguém me via. Pedi pão: ninguém me ouvia.

E na nova semana me levantei, e me arrastei pelos cabelos de Rapunzel rumo ao meu para-peito de metro e meio...

...E dali voei. Voei e o mundo gritou pra mim, e eu para o mundo.

O mundo que era meu, o mundo que mudou. O mundo que, ai Deus!, por fim acabou.

Berço


No berço do brasileiro

acordar, levantar, trabalhar

-Mãe, tem comida hoje?-

diz o filho que se desperta

à procura de um buraco para defecar.

Barriga vazia e o sol de guia

Arar as terras do seu Tonho.

O berço cresceu e amamentou.
(Baseado no Curta-Metragem de Bernad Attal e Joselito Crispim - Ilha do Rato)